O Oitavo Trabalho de Heracles: As Éguas de Diomedes
Publicado em Domingo,
personagem: Héracles, Euristeu, Diomedes, Abderos, Podarga, Lampon, Xanto, Deíno, Ares
O OITAVO TRABALHO: O CHEIRO DA CARNE E A RAIVA DAS FÉMEAS
Depois de domar o Touro de Creta, Héracles achava que já tinha visto o pior dos horrores. Mas Euristeu, sempre pronto para desafiar os limites do herói, o encarou com um olhar frio e disse: “Traga até mim as éguas de Diomedes.” Só esse nome já causava arrepios. Diomedes era o rei da Trácia, um guerreiro cruel, filho de Ares, e suas éguas... bem, elas não comiam feno nem pastavam ervas. Elas se alimentavam de carne humana.
DIOMEDES, O REI SEM MISERICÓRDIA
Diomedes governava a terra de Bistônia com punhos de ferro e dentes de ferro. Um monstro com coroa, forjado na fúria e no sangue. Filho do deus da guerra, ele não apenas ensinou suas éguas a comer carne, mas também usava isso como forma de punição. Todo estrangeiro que pisava em seu reino era arrastado para o estábulo. Lá, o som de gritos se misturava ao galope das patas. Era um terror tão macabro que ninguém ousava se aproximar — até agora.
A CHEGADA NA TRÁCIA E OS VENTOS DO NORTE
Héracles partiu com alguns companheiros — entre eles, o jovem Abderos — e viajou ao norte, até as frias planícies da Trácia. O vento ali cortava como lâmina. O céu parecia mais pesado, como se estivesse prestes a desabar. Os aldeões pelos quais passavam se escondiam. Quando ouviam o nome de Diomedes, fechavam portas e tapavam ouvidos. Ninguém queria se envolver. A presença das éguas era uma ferida aberta naquele solo gelado, e Héracles seria o único tolo — ou bravo o suficiente — para enfrentá-las.
O PRIMEIRO CONTATO COM AS ÉGUAS DEVORADORAS
Na escuridão dos estábulos, o cheiro de sangue pairava no ar. Héracles viu os olhos delas brilhando na penumbra — não de medo, mas de fome. Havia quatro: Podarga, Lampon, Xanto e Deíno. Seus dentes eram afiados como punhais, os olhos vermelhos como carvões vivos. Quando sentiram o cheiro de humanos, relincharam com violência. Estavam acorrentadas, mas não por muito tempo. Com gritos que pareciam vozes de guerra, começaram a se debater e puxar as correntes. Eram criaturas selvagens, amaldiçoadas, e famintas por carne viva.
O ENFRENTAMENTO COM O DONO DAS FERAS
Diomedes surgiu, imponente e furioso, acompanhado por seus soldados. Héracles não recuou. Disse apenas: “Vim pelas suas éguas.” Diomedes gargalhou. “Então vou alimentá-las com você.” A luta começou ali mesmo. Enquanto seus companheiros se espalhavam, Héracles encarou o rei da Trácia num duelo brutal. Era força contra força, sem truques nem armadilhas. Diomedes era rápido e cruel, mas Héracles era uma muralha. A cada golpe, o chão estremecia. A luta avançou até os estábulos, onde o destino decidiria o vencedor.
QUANDO O PREDADOR VIROU PRESA
Em um movimento inesperado, Héracles desarmou Diomedes e o ergueu como se fosse um boneco. Ao invés de matá-lo com um golpe, teve uma ideia mais sombria — e irônica. Jogou o próprio Diomedes dentro do estábulo, onde suas amadas éguas urravam de fome. O silêncio durou alguns segundos. Depois, o som da carne sendo rasgada preencheu o ar. Foi brutal. Mas necessário. As éguas se acalmaram, como se o gosto do próprio mestre tivesse encerrado a maldição que as consumia. Héracles observou, frio e impassível.
O SACRIFÍCIO DE ABDEROS
Com Diomedes morto, Héracles precisava conduzir as éguas de volta. Mas mesmo saciadas, ainda eram criaturas perigosas. Ele confiou o controle temporário delas ao jovem Abderos. O rapaz era valente, mas inexperiente. Enquanto Héracles finalizava os preparativos da partida, as éguas se agitaram. Em um instante de desatenção, atacaram. Quando o herói voltou, encontrou seu amigo dilacerado, o corpo sem vida coberto de mordidas. Héracles caiu de joelhos. A dor foi profunda. A culpa, insuportável. Pela primeira vez em muito tempo, ele chorou.
UM SEPULTAMENTO E UM LEGADO
Héracles enterrou Abderos ali mesmo, com honras. Ergueu um túmulo de pedras e jurou que o nome do amigo jamais seria esquecido. Fundou uma cidade nas redondezas, Abdera, para eternizar sua memória. Era a maneira dele de dizer que, mesmo em meio à violência, algo digno ainda podia nascer. Era também um lembrete de que os monstros que enfrentava não eram só externos — às vezes, estavam dentro de si, na escolha de confiar, de delegar, de ser vulnerável.
O RETORNO COM AS FÉMEAS AMANSADAS
As éguas, curiosamente, não ofereceram mais resistência. Com o corpo de Diomedes digerido e a fúria saciada, tornaram-se dóceis — ou pelo menos domesticáveis. Héracles as guiou de volta a Micenas como se fossem potros normais. Quando Euristeu as viu, recuou horrorizado. Ordenou que fossem soltas imediatamente. Não queria vê-las, nem saber delas. E assim, as éguas foram libertadas por Hera em um santuário de Ártemis, onde finalmente perderam o apetite por carne humana.
O FIM DO OITAVO TRABALHO E O PESO DO LUTO
Mais uma missão cumprida. Mas desta vez, não havia glória. Não havia festa. Apenas silêncio. Héracles havia vencido, sim. Mas à custa da vida de um amigo. Era o tipo de vitória amarga que só os verdadeiros heróis conhecem. E no fundo, ele sabia: ainda viriam desafios piores, monstros mais cruéis, e perdas mais dolorosas. Mas ele seguiria. Porque parar não era uma opção. E porque sua lenda não era feita de triunfos — mas de sacrifícios.
A IRA DE ARES E A SOMBRA DO FUTURO
A morte de Diomedes não passou despercebida no Olimpo. Ares, deus da guerra e pai do rei morto, ficou em fúria. Jurou vingança. Héracles sabia que isso viria cobrar um preço. Mas não se escondia. Sua existência já era um desafio às vontades dos deuses. E ele aceitaria as consequências, como sempre. Por ora, havia cumprido o oitavo trabalho. E mais uma vez, o mundo parecia um pouco menos selvagem — mas nunca menos perigoso.
UMA CIDADE QUE BROTOU DA TRAGÉDIA
Abdera, a cidade fundada por Héracles, prosperaria. Tornar-se-ia símbolo de coragem, de sacrifício, e da lembrança de que até os pequenos, como Abderos, podem deixar marcas eternas. Para Héracles, essa cidade era mais preciosa do que todos os troféus que já conquistara. Ali, ele havia perdido um pedaço de si. E ali, havia plantado a semente de um legado que nenhum deus, nem mesmo a morte, poderia apagar.
UM HERÓI QUE CARREGA O MUNDO NAS COSTAS
A história das éguas de Diomedes mostra o lado mais sombrio dos doze trabalhos. Não se tratava apenas de força bruta, mas de controle, escolha e humanidade. Héracles provou, mais uma vez, que era mais do que um guerreiro. Era um homem capaz de domar o que parecia indomável — mesmo quando isso custava tudo. E ainda havia mais pela frente. O nono trabalho o esperava. E ele não podia parar. Não agora. Não nunca.